terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Sansão se suicidou?


Não! Sansão não se suicidou!
Foi um ato desesperado de alguém arrependido.

Sansão experimentou o desespero de uma vida que perdeu a comunhão com Deus. Mergulhou no desespero, mas não se afogou nele.

Imagine alguém que experimentou comunhão tamanha com Deus como ele. Um nazireu de Deus, escolhido desde o ventre de sua mãe. Separado por Deus para uma missão específica dentro de uma conjuntura sócio-política-religiosa de sua nação. Dotado de uma força descomunal proviniente de um pacto com Deus simbolizada no comprimento de sua linda cabeleira.


O Livro sagrado diz que o Eterno o impelia para o deserto e ali ele experimentava comunhão com Deus. Dessa comunhão brotava a sua força, a sua glória e o seu poder. Era temido, respeitado, amado e tambem invejado pelas pessoas. As mulheres suspiravam quando ele passava. Os filisteus perdiam o sono e nos bares e botecos da Filístia só se falava nele e na sua magestosa força. "Filho dos deuses dos hebreus"! "Filho de Poseidon" ou de "Zeus"?, questionavam os bárbaros do Norte. 

Dele surgiria o mito de "Hércules". As crianças nas ruas das aldeias ou mesmo as que viviam nas campinas o imitavam em suas brigas fantasiosas.
O que ninguem sabia é que a força dele estava em sua comunhão com Deus, repito, materializada em seu longo cabelo. Passava tardes e tardes andando pelos montes rochosos, pelas cavernas sombrias e pelos campos hebreus, na companhia do seu Deus, o Eterno.


Quem pode descrever o que ele sentia? Quem pode revelar a doçura de sua comunhão com aquele que criou o Universo? Tamanha graça não pode ser descrita em palavras.


Mas na medida em que Sansão foi se tornando um homem crescido e maduro pela idade, outras coisas começaram a chamar sua atenção. A beleza das mulheres, principalmente as filistéias. Elas eram muito sensuais. Havia algo de erótico nelas que faltava nas mulheres hebréias. E as festas dos filisteus irrigadas pelas músicas e pelas bebidas e danças? Por que não conhecer um pouco mais deste mundo diferente e engraçado? Engraçado? "Vou-lhes propor alguns enigmas, parece que eles gostam disso..."Sansão já dividia o seu tempo com os idiotas filisteus. Seu temperamento melancólico e suas tardes solitárias agora estavam mais interessantes.

E Deus? Deus continuava lá nos montes e nos desertos esperando o seu herói!
Ele não veio hoje...
O perigo da Graça está aí!
Ela não reclama, não castiga, não corre atrás, não proíbe.
Depois de uma noite gostosa com uma prostituta, Sansão espera o castigo de Deus, mas o castigo não vem...


A graça não permite este tipo de critério.
Não é assim que funciona.
Deus e a sua "absurda" decisão de jamais interferir na liberdade dada ao homem. Mesmo que se trate de seu "campeão" - Sansão.
Sansão deixa a tenda do prazer e corre para o deserto. Espera o castigo do Eterno, mas ele não vem em forma de "surra divina". 


Mas, algo acontece. 
O coração de Sansão está frio em relação a Deus. Como a surra não vem, agora chegou a vez de conhecer Dalila. "Vou transar com ela"! Ela é a mais cobiçada das mulheres filistéias! 

Transa, se apaixona e espera o castigo de Deus. Corre para o deserto.


"Deus não mudou"(eu mudei!)! "Ele continua aqui e me ama e não retirou sua força de mim"! Corre para os braços de Dalila.
Não há uma placa de "pare!" Nínguem o adverte do perigo que lhe está rondando. Ele se afasta de Deus em seu coração. A Luz lá no deserto dos hebreus continua brilhando. Ela não muda. Quem se afasta é Sansão.


Agora começam as brigas de ciúmes. As discussões com a amante. As tramas nos bastidores das festas filistéias.
Tramam uma cilada. A chave é Dalila.
O coração de Sansão fica amargo e em seu íntimo; sente saudades de sua comunhão perdida com o Eterno. Em algum lugar e momento ele perdeu o rumo, perdeu a disciplina, perdeu a comunhão com Deus.


"Trocaria tudo o que tenho para voltar para Deus". "Só que agora já é tarde"(ele pensa)! Cortaram o seu cabelo. Furaram os seus olhos. Amarram ele junto aos animais de tração na moenda de trigo.
"Troco tudo o que tenho pela Sua presença!(ele se desespera)"!
"Troco até mesmo minha vida por um pouco daquela vida que tinha antes de me meter com estes filisteus"!


E na linguagem usada da relação de Sansão com Deus, a força física era sinal legítimo de comunhão restaurada. Era como voltar a casa do Pai.
"Tudo o que tenho, até mesmo minha vida, pela minha volta a comunhão Contigo"!

Então, quando amarrado entre duas colunas no templo de Dagom, e já sentindo a comunhão restabelecida com o Pai, Sansão grita:- "Morra eu com os filisteus"!


A casa cai...Milhares de filisteus morrem naquele dia. O silêncio se mistura a poeira e aos escombros. Nínguem mais está rindo.

Não foi suicidio aos olhos de Deus, foi o filho pródigo que voltou a casa do Pai!

Reinaldo de Almeida

Um comentário:

Anônimo disse...

Gostei do texto. É por isso que os homens precisam se afastar dessas mulheres sedutoras. Custa a vida deles.